Quarentena não é um período sabático. Tudo bem se você não aprendeu a fazer pão


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Você se tornou uma pessoa melhor na pandemia?


“Não quero alarmar ninguém, mas acabaram de me perguntar em uma entrevista de emprego se usei a pandemia 'para buscar projetos apaixonados ou desenvolvimento pessoal”, tuitou Niall Anderson, “O mercado realmente quer que todos pensemos que acabamos de ter um generoso ano sabático.”




E em pouco tempo, o conteúdo viralizou com as mais diversas opiniões. Gente que acredita que sim, esse tempo deve ser preenchido com uma atividade que proporcione crescimento pessoal e, portanto, a pergunta seria super legítima; por outro lado, o que mais impressionou Anderson, no entanto, foi a quantidade de pessoas que afirmaram ter recebido o mesmo questionamento, “Eu não havia considerado seriamente que poderia ser generalizado. Uma das razões pelas quais eu tuitei sobre isso em primeiro lugar foi que parecia uma novidade terrível”.


O sentimento é real e, ele pode se manifestar tanto de formas explícitas como no exemplo do Anderson, quanto implicitamente. Se você não sentiu essa pressão em algum momento desde que tudo isso começou, conta pra gente como é que faz.


Tudo isso ainda nem acabou, e estão nos apressando em tirar conclusões, vivências e experiências. É como se ainda nem tivéssemos acabado o almoço, e estivéssemos preocupados na qualidade da digestão e seus possíveis efeitos benéficos para o corpo. “Quando passamos por uma experiência traumática, muitas pessoas tentam se apressar em entender isso”, Joy Harden Bradford, psicóloga.


Produtividade Tóxica, já ouviu falar sobre isso?


O discurso da produtividade, veio com tudo, muito embora, ele não tenha nascido nestes tempos, surgiram termos como coronapreneur, pós-pandemia (mesmo absurdamente, tudo indicar que ainda tem muita água para rolar) e, até gente desenterrando informações como, Shakespeare ter escrito Rei Lear enquanto vivia uma quarentena também desencadeada por uma pandemia.




Se antes podíamos colocar a culpa no chefe e na cultura do escritório quando o assunto é excesso de trabalho e cobrança, talvez hoje, acabamos de dar conta que nos tornamos nossos próprios CEOs. Autoexploração de repente ganhou um status bem chic, não basta zerar a caixa de e-mails e dar conta de tudo na vida corporativa, nada disso vale de nada, se você não tiver aprendido a fazer um pão de fermentação natural, ter consumido vários conteúdos com dicas para ser mais produtivo na quarentena, lições preciosas sobre finanças e, claro, dar conta de toda organização da casa.


“A maior crise que a gente vive é a da expectativa. Nos vendem a ideia de super-homem, supermulher, superpais. Somos bombardeados por modelos de perfeição e toleramos muito pouco a imperfeição, que é o que define a humanidade. A gente já aprendeu a fazer exercício, comer bem, mas não aprendeu a cuidar do cérebro, a agir de forma preventiva. Ainda estamos vivendo essa coisa adolescente de que o cérebro dá conta de tudo, o que é mentira.“ Neurologista Leandro Teles, em conversa com a Gama.


É preciso se esforçar sempre para tirar o lado bom de tudo?

Por algum motivo, o objetivo da vida, se tornou exclusivamente, ser feliz. Independente da busca individual que existe dentro de cada indivíduo, a psicologia reconhece essa fuga e aversão a dor, no princípio do recalque, rejeição a tudo que se distancia dessa felicidade, não ouvir e aprender com estas experiências traumáticas, é a tendência de se permanecer em um lugar cômodo e confortável.


Contudo, neurologistas e psicólogos afirmam que não há nada de errado em tentar reformular sua experiência da pandemia sob uma luz positiva, esses mecanismos inclusive, são tentativas das pessoas de lidar com suas ansiedades. O problema surge da pressão externa, para que estas tentativas, tenham uma conclusão extremamente positiva e produtiva.




Como driblar a positividade tóxica


A revista Gama, por Manuela Stelzer e Dandara Franco, fizeram uma lista com 5 dicas, para ajudar a lidar com os sentimentos "negativos" e sua importância, para não se deixar levar pelo canto da sereia good vibes.


É inegável o efeito da pandemia como ponto de referência para repensar relações com o trabalho e com os amigos. Tem gente que não quer mais voltar para o escritório, tem gente que está reavaliando suas prioridades em relação a carreira.


Fica a dúvida, essa mudança veio para ficar, ou vai passar depois disso tudo?


“Não há nada que você deva tirar disso tudo”


O que se chama atenção mais uma vez, é a pressão imposta nesse dever de se tirar algo disso tudo.


"Ser feliz o tempo inteiro não vai levá-lo muito longe. A animação “Divertidamente” (2015) comprova essa tese. O filme é uma viagem para dentro da cabeça de Riley, onde vivem as cinco emoções humanas básicas: alegria, raiva, nojo, medo e tristeza. Aqui, um spoiler: é só quando a Riley fica triste e chora, ou seja, só quando a Alegria percebe que a Tristeza também é necessária, que as duas se unem para criar lembranças mistas, com memórias positivas e negativas, e que permitem que ela cresça e evolua. “"A emoção de tristeza ali tem uma função, assim como a raiva, o medo. Todas elas têm importância"”, afirma o psicólogo Yuri Busin." Revista Gama.


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Não Larguei Tudo. Uma Newsletter para entender o mundo e identificar tendências a partir do olhar de quem viaja, não como um turista, mas um peregrino. Toda quinta feira, na sua caixa de entrada, uma seleção de notícias que passam despercebidas no meio do barulho da hiperinformação. Falamos sobre carreira, tecnologia e, principalmente, como ressignificar o conceito de Nomadismo Digital.



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Minha Adega de Referências e Inspirações


Lockdown was not a sabbatical por Anna North. "É uma pergunta que muitos de nós estão sendo questionados, em grandes e pequenas formas, à medida que mais pessoas são vacinadas, as restrições são retiradas e a vida pública começa a voltar a algum aspecto do normal."


Did I use the pandemic for ‘self-improvement’? Nope. And that’s fine /Jessa Crispin: "Algumas empresas estão perguntando a possíveis funcionários como eles usaram a pandemia. Direi com orgulho: não tenho nada para mostrar"


Como driblar a positividade tóxica "Confira essas dicas para não cair no papo ‘good vibes’ e evitar suprimir sentimentos negativos — afinal, eles também são importantes" Manuela Stelzer e Dandara Franco


O cérebro ansioso: Aprenda a reconhecer, "Quão ansioso você é? O cérebro ansioso convida o leitor para um passeio pela mente humana, explicando os conceitos por trás dos transtornos de ansiedade, que atrapalham a vida de milhares de pessoas."

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