Mentiras reconfortantes ou verdades desagradáveis?

Entenda como a série 'Matrix'​ pode nos ajudar a fazer esta escolha.


Se você pudesse escolher entre uma vida de aparências, ilusões e tédio ou encontrar o mundo efetivamente real (embora desconhecido), qual seria sua escolha?


Embora nosso ego queira nos convencer de que a resposta correta é a segunda, tomar logo a pílula vermelha, em diversas situações do nosso dia a dia inconscientemente ou não, somos teleguiados pela zona de conforto e reproduzimos uma vida de aparências, ilusões e tédio.


No primeiro filme da trilogia Matrix, Neo (ainda Thomas Anderson) é desafiado por Morpheus a fazer esta opção, através da escolha entre a pílula azul ou vermelha.


"Escolhes a pílula azul e a estória acaba. Acordas na tua cama e acreditas no que quiseres acreditar. Escolhes a pílula vermelha e continuas no País das Maravilhas e eu mostro-te até quão fundo vai o buraco do coelho."
MORPHEUS, MATRIX.

Se você já viu o filme, já sabe que Neo escolhe a pílula vermelha. Para nossa alegria, ele entra no buraco do coelho e experimenta a verdade, fazendo um bem danado a nos ajudar entender o fragmento de realidade que é nossas vidas.


Matrix narra um sistema inteligente e artificial que seria capaz de manipular o livre arbítrio das pessoas, com objetivo de usar cérebros e corpos humanos para produção de energia (bizarro).


São muitas as metáforas apresentadas no filme e através delas, é possível fazer várias conexões ao nosso dia a dia. Propondo que a realidade em sua essência, maior e mais permanente, se expande além da vida física


Pergunta chave para continuarmos nossa discussão, Lilly e Lana Wachowski roteiristas da trilogia, foram as primeiras a querer contar esta história?


Separei 3 tópicos a seguir, para nos ajudar a desenvolver estas questões e responder a pergunta título deste artigo, 'Mentiras reconfortantes ou verdades desagradáveis? Entenda como a série 'Matrix' pode nos ajudar a fazer esta escolha'.


Alegoria da Caverna de Platão


Muito antes das irmãs roteiristas, Platão em 531d-534e (nem sei como falar este ano), nos descreve o Mito da Caverna, em que ele apresenta sua teoria idealista do conhecimento e verdade.


E é a partir deste mito, que vamos fazer um paralelo em Matrix e o mundo real, ao decorrer deste artigo.


A história da Alegoria da Caverna de Platão, começa descrevendo homens que, desde a infância foram acorrentados das pernas ao pescoço dentro de uma caverna como prisioneiros e escravos



A partir da imagem acima, veja que a estes prisioneiros, é dado apenas o direito de ver sombras projetadas na parede logo a frente, o muro alto e as correntes atadas impedem até mesmo que eles virem o rosto para trás, só é possível olhar para frente (repare como este é lado é escuro).


Estas sombras por sua vez são feitas por uma fogueira logo atrás, em que outros homens passam utilizando objetos e gestos para projetá-las.


Mais a frente, podemos ver alguns outros prisioneiros prestes a sair e outro já fora da caverna.


Beleza, e o que isto tem a ver com Matrix?


Platão nunca pode escrever abertamente seus pensamentos, sob constante ameaça da época, cujas consequências era a fogueira.


E por uma escrita riquíssima, a essência do Mito da Caverna, fala sobre a liberdade e acesso ao mundo das ideias, onde os homens estariam livres da falsa realidade, mantendo-se em contato, por meio do pensamento, com as essências puras das coisas do mundo.


Todos os elementos da história platônica, possuem sincronismo com nosso modelo de cultura, como também com Matrix; e partir de agora, através dos personagens e símbolos do filme vamos começar a investigar suas relações.


O filme começa descrevendo a rotina de Neo (ainda Thomas Anderson).


Com uma vida completamente normal, Neo é um jovem programador que tem um emprego formal, segue todos os dias cedo ao trabalho de roupa social, direto para um escritório cinza dividido em baías (como cavalos).


Ao final do trabalho, chega em casa cansado para fazer qualquer outra coisa que goste. Sua casa é um cubículo sujo e escuro, palco constante dos pesadelos e sensações que o fazem duvidar da realidade.


Perceba que no conceito de uma vida normal para um homem jovem, Neo não é muito feliz. Como prisioneiro de sua rotina e infelicidade, alimenta a justificativa de todo este sacrifício como necessário (velho bordão que sofrer faz parte da vida).


Como na não ficção, em quantos momentos da vida, o homem se vê obrigado a viver como Neo no início da história?


Sem uma reviravolta, seria impossível continuar a acompanhar a vida de aparências, ilusões e tédio de Neo, seria o filme mais chato do mundo na minha opinião (justamente porque imitaria a vida normótica que é péssima).


Mas uma escolha muda tudo.


E antes de falar sobre esta escolha do personagem, vamos investigar o proceso de libertação de um prisioneiro na história platônica e como ele se relaciona ao filme + realidade.


Lembre-se que dos pés a cabeça, existem correntes, que mantém os presos em cativeiro. Romper, não será tarefa fácil, além de muita força, pode ser que sacríficios como quebrar membros do próprio corpo, precisem ser feitos.


Após romper as correntes, e virar-se para o fogo, será necessário um tempo para que seus olhos possam se acostumar a luz (viveram toda vida em ambiente escuro).


Uma vez adaptados a nova incidência luminosa, só então é possível distinguir as sombras projetadas das imagens reais e então sair da caverna; então é apresentada pela primeira vez ao preso, a verdade.


Este mesmo preso, triste por seus companheiros, reféns da ingnorância, retorna a caverna para ajudar seus irmãos se libertarem da escravidão. Mas é recebido como um louco.



E assim como o preso de Platão, Neo é tido como louco diversas vezes (eu fico muito feliz porque muita gente acha que eu sou louca também).


E eu já falei isto por aqui, mas não custa repetir, uma mentira repetida muitas vezes se torna uma verdade.


Em busca desta verdade, Neo toma a decisão que muda toda história.


Para quem vive todos os dias a mentira dos outros, atormentando pelos seus pesadelos diários e dúvidas constantes sobre a realidade, provavalmente pensou, pior que está não fica, bora de pílula vermelha, me mostre até onde vai a toca do coelho.


“Lembre-se…tudo que ofereço é a verdade. Nada mais”. MORPHEUS, MATRIX.

E a verdade pode doer, para os prisoneiros platônicos assim como Neo, quando depois de tomar a pílula vermelha (romper as correntes e olhar ao fogo), pergunta:


"Porque meus olhos doem?" "Porque você nunca os usou". Neo e Morpheus, MATRIX


Assim como o desafio título deste artigo, "Mentiras reconfortantes ou verdades desagradáveis", Neo nos ajuda pensar quantas vezes nossos olhos doeram nos últimos tempos e refletir se não estamos muito confortáveis com nossa realidade.


Sair da caverna é o símbolo diário de DÚVIDA, não aceitar as afirmações sem antes analisá-las mesmo que isso te defina louco.


Pergunte, pergunte, pergunte.


Até chegar a resposta, "Porque sempre foi assim". Quando eu chego neste ponto, é quando sei que tal comportamento, argumento seja o que for, não vale de nada para mim, simplesmente me dou por satisfeita e sigo fazendo a minha maneira.


Quando eu menciono que seria o filme mais chato do mundo, continuar vendo o dia a dia sem graça de Neo, é o exato momento de analisar e tomar o protagonismo da própria existência. Se você não gostaria de assistir por 2 horas a história de alguém que vive de aparências, ilusões e tédio, porque você faria o mesmo com a sua vida?


Embora muito radical, um sistema capaz de manipular o livre arbítrio das pessoas, com objetivo de usar cérebros e corpos humanos para produção de energia, em diversos momentos já me senti sem forças e com falta de esperança sobre muitas questões.


Como Neo, alimento delírios e dúvidas sobre a realidade, isto faz com que as verdades desagradáveis fiquem menos insuportáveis, aos poucos os olhos vão se acostumando e o desconforto simplesmente desaparece.


É um desafio diário, este sistema possui muitos guardiões que vão querer te puxar de novo, toda vez que você ameaçar entrar na toca do coelho.


E não imagine que você vai encontrar o Agente Smith como guardião assim como em Matrix. Ele evoluiu (cada vez mais sorrateiro), agora se parece mais com a Mística do X-men, podendo facilmente se passar pelos seus pais, familiares, amigos e professores, te apresentando as mentiras reconforantes mais deliciosas com uma xícara de chocolate quente igualmente deliciosa.



Existe um exercício muito legal que eu fiz que dizia o seguinte.


Se você pudesse escolher um filme, para narrar a história que você gostaria de viver, qual seria?


E sem pensar duas vezes, escolhi 'Ace Ventura, Detetive de Animais'.


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Primeiro porque amo os animais, segundo sou fã número 1 de Jim Carrey, terceiro e final, sempre gostei de levar a vida com bom humor, portanto me parece o roteiro ideal para interpretar.


É assim que eu supero a minha caverna interior sem abdicar do mundo. Uma vez que eu não sou O Escolhido como Neo, não vou gastar minha energia lutando contra o sistema, mas sim buscar alternativas de coexistir em harmonia (escrever faz parte deste exercício).


Antes de ir embora, quero devolver o mesmo desafio a você, te propor o sentimento da desconfiança e rebeldia (não é ser mal educado), sentir sua intuição e se permitir guiar pelo interior.


Se você pudesse escolher um filme, para narrar a história que você gostaria de viver, qual seria?


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Sobre a autora


Oi, eu sou a Mari, não gosto dessa coisa de falar sobre mim na terceira pessoa e prefiro contar sobre minhas experiências e sonhos a falar sobre meu currículo profissional.


Minha maior ambição é inspirar a produção e consumo de conteúdo criativo no mundo de forma simples e prática, para que as pessoas possam levar a vida com mais humor e tirar velhos planos da gaveta.

Fora do meu horário de trabalho, estou sempre escrevendo algumas coisas aqui. Em 2020 comecei oficialmente a ajudar algumas pessoas a fazerem o mesmo, o objetivo: viver plenamente, escrita é também é terapia!

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