A inveja é útil

As primeiras pessoas que me lembro de ter sentido inveja na vida, foram meus irmãos, eu sou a única filha mulher entre 4 filhos; a liberdade masculina que é construída na nossa sociedade, sempre foi um objeto de desejo para mim.



Cresci fazendo as mesmas coisas que eles faziam (por conta da influência e também porque eu gostava), jogando bola, assistindo os mesmos desenhos, troquei o jazz pelo judô e, até o corte de cabelo do meu irmão mais velho eu tive (corte surfista).


Muitas pessoas me chamavam de Nila (o nome de um dos meus irmãos é Nilo) e muitas me criticavam por fazer "coisas de homem" ou que eu deveria ser mais feminina e delicada.


Cresci assim, com esse mix de emoções, lutando para me ajustar entre padrões e a busca por liberdade. No meio dessa confusão, meu desajuste se transformou em raiva: elegi meus irmãos culpados pela opressão que eu recebia da sociedade.


Exemplo, nós quatro tínhamos o joelho ralado de jogar bola na rua, mas nunca ouvi eles receberem conselhos do tipo, "moça com a perna cheia de cicatriz, não arruma namorado".


Tentei então encontrar algo que eu gostasse dentre atividades consideradas "femininas", mas fracassei em quase todas; não bastante, transformei essa frustração e incapacidade de lidar com a situação, em brigas e conflitos constantes com meus irmãos.


E sabe o motivo?


Simples, eu sentia inveja deles, frustração e rancor gerado perante uma vontade não realizada.


Descobri isso muitos anos depois na terapia, felizmente ou infelizmente, já não julgo mais a ordem cronológica/natureza dos fatos em minha vida ou o quanto poderia ter sido mais ou menos feliz em cada período caso tivesse tomado decisões diferentes.


Acontece apenas que, hoje aos 27 anos de idade, encontrei outras utilidades para a inveja: toda vez que essa emoção entra no meu coração, eu questiono quais desejos foram reprimidos/recalcados para que ela pudesse vir à tona tão facilmente em formato de frustração.


Me peguei fazendo o exercício de analisar todas as vezes que senti ódio, raiva ou aversão em qualquer contexto, e descobri que foram muitas.


Ao contrário de fazer o auto julgamento do meu caráter e me sentenciar entre inocente ou culpada, me desafiei a transformar essa energia em outro produto, exatamente como em um processo de alquimia: tornar um sentimento desprezado pela sociedade, em material de autoconhecimento.


Pensei em todas as vezes que desmereci conquistas alheias, me incomodei com algumas pessoas, critiquei artistas pela qualidade de seus conteúdos ou quando me senti superior a outras pessoas por não assistir BBB.


Ninguém é obrigado a gostar das mesmas coisas, mas qual o direito nós temos de diminuir ou sair falando mal por aí das escolhas alheias?


E posso dizer que, no meio destes pensamentos, fui abençoada por uma epifania: a inveja é útil.


Ela é uma emoção meio e não fim.


Inevitavelmente passamos por ela, e você mente se disser que não. Quem nunca foi comparado com um irmão ou primo? Quem nunca sentiu inveja da paquera do amig@ na adolescência? Quem nunca achou que um colega não merecia aquela promoção?


No entanto, quantas vezes passamos por esse sentimento e analisamos os recalques que estão por trás deles? Poucas, ou quase nenhuma.


Essa análise é benéfica tanto para o invejoso quanto o invejado, ela nos permite construir relacionamentos simples e verdadeiros, favorece a colaboração e desconstrói a falsidade dos tapinhas nas costas que a vida nos ensina a engolir.



Mentes inquietas, proporcionam estilos de vida inquietos.


Instabilidade é uma propriedade que foge de todos os estados da natureza, desde um único átomo ao conjunto universo inteiro.


A homeostase é um conceito da biologia que consiste no esforço dos instintos em equilibrar as adversidades (internas ou externas), de maneira a manter as condições ideais para que a vida aconteça.


E a vida acontece no instante em que, conseguimos identificar estes padrões que nos levam a repetir os mesmos comportamentos, sublimar esse ciclo e colocar um fim no automatismo. Esse é o clímax (para quem gosta de Filosofia Hindu, esse é o ponto que conseguimos sair da Roda de Samsara).


Inveja, não é motivo de vergonha, é ferramenta, nada que seja produto da sua mente é. Motivo de vergonha, é reprimir mais uma emoção.


Já diria Popozuda, Valéria, Keep Calm, Deixa de Recalque.


Se você também é uma Mentes Inquieta, vem comigo para conteúdo reflexivo em primeira mão, você pode se inscrever na minha Newsletter ou entrar no Grupo do LinkedIn, tem sempre conteúdo para te ajudar encontrar sua melhor versão por lá.


Sobre a autora


Oi, eu sou a Mari, não gosto dessa coisa de falar sobre mim na terceira pessoa e prefiro contar sobre minhas experiências e sonhos a falar sobre meu currículo profissional.


Minha maior ambição é inspirar a produção e consumo de conteúdo criativo no mundo de forma simples e prática, para que as pessoas possam levar a vida com mais humor e tirar velhos planos da gaveta.


Fora do meu horário de trabalho, estou sempre escrevendo algumas coisas aqui. Em 2020 comecei oficialmente a ajudar algumas pessoas a fazerem o mesmo, o objetivo: viver plenamente, escrita é também é terapia!

Tem dúvidas? Quer acompanhar todas as novidades? Ficar por dentro de todas as ideias? Fala comigo, é só me seguir no LinkedIn, Mariana Rosa.

1 visualização0 comentário